News from Brazil
I was talking to my mother on the telephone this afternoon and, to say the truth, I was appalled by the news she gave me (what's interesting is that my mom always has news. She always, doesn't matter how often I call her, always has something to tell me. It's either the ferrets or the weather or even people who passed away - she collects interesting daily things to tell me whenever I give her a call).
But today, I really wasn't expecting that. The news were simply sad. No one died, God forbid, but it was just as depressing. First, I think I hadn't given a thought about the matter of our conversation for maybe a month or so. The problems that were bugging my mind at the time I left my home country were far behind me. I had honestly thought I had gotten rid of them. However, as I said "hello" on the phone, I eventually heard a profound sadness and an unusual lack of joy in her voice. I instantly knew something was tormenting her.
Maybe tormenting is not the correct word... I know she's strong and she actually said she was over it the minute the event in question ended. But as she described everything and the way I pictured things happening, I felt my heart full of anger and grief. I wanted to wrap my arms around her and cry. Cry for not being there. Cry for how distant I am. Cry - just for the sake of it.
As to what happened, there's barely anything I can do. Even if I was home, my hands are completely tied and my mouth finally shut. There are things and people that you just have to let go. And this is a decision I've made, I'll let it go.
Thursday, April 27, 2006
Monday, April 24, 2006
Da janela vejo uma arvore cheia de folhas verdes (quase comum nessa epoca do ano). E, no meio da grama, os caminhos de concreto levam e trazem estudantes, mocos e mocas de saia (eles escoceses) e ate criancas de maos dadas num trenzinho desengoncado.
Da igreja vem os blem-blem-blem dos sinos e no predio em frente ao meu, as colunas greco-romanas brancas dao contraste ao predio de tijolos vermelhos. No ceu, nuvens acinzentadas ameacam chuva. Sente-se o vento frio cortando a pele - sim, eu sei, e primavera.
E primavera aqui e e primavera na vida. Sempre me pergunto se a essa altura do campeonato eu ja deveria ter feito mais de mim do que sou. Sera que ja deveria ter feito algo mais que um curso de sociologia e um diploma de CAE? Sim, se tivesse me orientado desde cedo para as recompensas financeiras. Creio que deveria ter tomado uma atitude mais, digamos, capitalista. Porem, eu que sempre curti a vida tranquila, minha casa, meus bichos, meu chao, preferi dividir o meu tempo em aulas e casa. "Olhai os lirios do campo!". Sempre penso nisso.
Na verdade, eu sempre olho os lirios (nao necessariamente eles, mas vejo as arvores) e penso que nada ha de faltar. Mas me confundo quando olho os passaros ou os esquilos: como trabalham! Sempre correndo (ou voando) para la e e pra ca atras de... comida, subsistencia. Sera que eu deveria correr mais? Sera que a dadiva divina so vem para os que estao plantados na terra? Se for assim...
Mas resisto em pensar que o futuro nao sera diferente. Tenho esse pensamento otimista de que tudo vai se arranjar com o tempo. A vida prova que as coisas se organizam da mesma forma que as dores passam: o tempo cura. Ou sera que nos acostumamos com tudo? Seja la como for, vai ser bom. Se o agora e otimo, por que nao ha de continuar assim?
Da igreja vem os blem-blem-blem dos sinos e no predio em frente ao meu, as colunas greco-romanas brancas dao contraste ao predio de tijolos vermelhos. No ceu, nuvens acinzentadas ameacam chuva. Sente-se o vento frio cortando a pele - sim, eu sei, e primavera.
E primavera aqui e e primavera na vida. Sempre me pergunto se a essa altura do campeonato eu ja deveria ter feito mais de mim do que sou. Sera que ja deveria ter feito algo mais que um curso de sociologia e um diploma de CAE? Sim, se tivesse me orientado desde cedo para as recompensas financeiras. Creio que deveria ter tomado uma atitude mais, digamos, capitalista. Porem, eu que sempre curti a vida tranquila, minha casa, meus bichos, meu chao, preferi dividir o meu tempo em aulas e casa. "Olhai os lirios do campo!". Sempre penso nisso.
Na verdade, eu sempre olho os lirios (nao necessariamente eles, mas vejo as arvores) e penso que nada ha de faltar. Mas me confundo quando olho os passaros ou os esquilos: como trabalham! Sempre correndo (ou voando) para la e e pra ca atras de... comida, subsistencia. Sera que eu deveria correr mais? Sera que a dadiva divina so vem para os que estao plantados na terra? Se for assim...
Mas resisto em pensar que o futuro nao sera diferente. Tenho esse pensamento otimista de que tudo vai se arranjar com o tempo. A vida prova que as coisas se organizam da mesma forma que as dores passam: o tempo cura. Ou sera que nos acostumamos com tudo? Seja la como for, vai ser bom. Se o agora e otimo, por que nao ha de continuar assim?
Friday, April 21, 2006
Muitas vezes na vida nos deparamos com pessoas invejosas. E interessante, porque ninguem, mas ninguem mesmo, admite ter tal sentimento. Ninguem chega para o analista e diz: "olha, eu tenho esse problema de inveja... eu morro de inveja de fulano e beltrano, alias eu tenho inveja de todo mundo que tem o que eu nao tenho".
Como mulher, eu sinceramente acho que isso atinge mais o nosso sexo. Afinal, quem e que ja viu um homem que, ao ver o sapato novo do amigo (pra comecar eles nao reparam!) morre de inveja e corre pra um shopping para achar um sapato identico ou parecido ou ainda (a facada final feminina), mais caro? Eu nunca vi meu marido se queixando que este ou aquele amigo dele sao mais magros que ele. Muito menos reclamando que fulano ganha mais e por isso anda mais bem vestido. Isso simplesmente nao faz parte do universo masculino.
Mas no feminino... bem, as coisas sao um tanto diferentes. As comparacoes (vulgo inveja) acontecem em todos os niveis: mae com filha, amiga com amiga e inclusive entre mulheres que nem sequer se conhecem. Mae com filha: "quando eu era jovem, eu nao tinha tanta celulite quanto voce!". Leia-se: "ai que inveja da sua juventude!". Amiga com amiga: "voce acha que emagreceu? imagina! ta a mesmissima coisa!!". Leia-se: "voce esta mais magra que eu - ai que inveja - mas eu vou negar ate a morte!!". Desconhecida com desconhecida (em pensamento): "aquele vestido da patachou ficou o O nela!!", leia-se: "eu teeeeenho que comprar aquele vestido, nem que eu divida em 18 parcelas no cartao!!".
Pois e, fui vitima da inveja de uma conhecida nos ultimos dias. Na verdade, claro, somos sempre vitimas de inveja - afinal, tem sempre alguem pior do que nos mesmos. Alguem olha para uma pessoa obesa e sente inveja? Ou ve um miseravel na tv e gostaria de estar no lugar dele? Por acaso sentimos vontade de ter aquela furreca velha parada na beira da estrada no meio de um toro? Nao, nao e nao. Mas e claro que se vemos alguem magro, lindo, rico e dirijindo um jaguar, rola aquela pontinha de... voce sabe o que.
Segundo a minha mae, devemos fazer de tudo para que os outros nao sintam inveja. Ok, eu juro que tento, mas tem gente que insiste. Diz ela que o melhor jeito e dar gracas a Deus. Explico: quando uma fulana diz "Voce e mais nova que eu e ja e casada (com um meeeedico!!)". A isso, responde-se: "Mas e um milagre! So um milagre explica isso!". "Voce tem a nova gaucho bag!!! E carissima!". De novo: "so Deus explica isso! e como um milagre!". E por ai vai.
Ok entao. A quem morre de inveja do meu rico dinheirinho empregado em um simples corte de cabelo (eu valorizo muito minhas madeixas, que fique registrado), respondo: e um milagre eu ter tido dinheiro para pagar. So Deus mesmo! Aleluia.
Como mulher, eu sinceramente acho que isso atinge mais o nosso sexo. Afinal, quem e que ja viu um homem que, ao ver o sapato novo do amigo (pra comecar eles nao reparam!) morre de inveja e corre pra um shopping para achar um sapato identico ou parecido ou ainda (a facada final feminina), mais caro? Eu nunca vi meu marido se queixando que este ou aquele amigo dele sao mais magros que ele. Muito menos reclamando que fulano ganha mais e por isso anda mais bem vestido. Isso simplesmente nao faz parte do universo masculino.
Mas no feminino... bem, as coisas sao um tanto diferentes. As comparacoes (vulgo inveja) acontecem em todos os niveis: mae com filha, amiga com amiga e inclusive entre mulheres que nem sequer se conhecem. Mae com filha: "quando eu era jovem, eu nao tinha tanta celulite quanto voce!". Leia-se: "ai que inveja da sua juventude!". Amiga com amiga: "voce acha que emagreceu? imagina! ta a mesmissima coisa!!". Leia-se: "voce esta mais magra que eu - ai que inveja - mas eu vou negar ate a morte!!". Desconhecida com desconhecida (em pensamento): "aquele vestido da patachou ficou o O nela!!", leia-se: "eu teeeeenho que comprar aquele vestido, nem que eu divida em 18 parcelas no cartao!!".
Pois e, fui vitima da inveja de uma conhecida nos ultimos dias. Na verdade, claro, somos sempre vitimas de inveja - afinal, tem sempre alguem pior do que nos mesmos. Alguem olha para uma pessoa obesa e sente inveja? Ou ve um miseravel na tv e gostaria de estar no lugar dele? Por acaso sentimos vontade de ter aquela furreca velha parada na beira da estrada no meio de um toro? Nao, nao e nao. Mas e claro que se vemos alguem magro, lindo, rico e dirijindo um jaguar, rola aquela pontinha de... voce sabe o que.
Segundo a minha mae, devemos fazer de tudo para que os outros nao sintam inveja. Ok, eu juro que tento, mas tem gente que insiste. Diz ela que o melhor jeito e dar gracas a Deus. Explico: quando uma fulana diz "Voce e mais nova que eu e ja e casada (com um meeeedico!!)". A isso, responde-se: "Mas e um milagre! So um milagre explica isso!". "Voce tem a nova gaucho bag!!! E carissima!". De novo: "so Deus explica isso! e como um milagre!". E por ai vai.
Ok entao. A quem morre de inveja do meu rico dinheirinho empregado em um simples corte de cabelo (eu valorizo muito minhas madeixas, que fique registrado), respondo: e um milagre eu ter tido dinheiro para pagar. So Deus mesmo! Aleluia.
Sunday, April 16, 2006
A bi-cicleta
Ontem conhecemos um casal francês, Jean e Danielle.
Ja na faixa dos 60, Jean tem um incrível senso de humor que aniquila qualquer tentativa de conversa intelectual com uma piada irônica (eu achei sensacional!). Ela - como todas francesas - magra, de sotaque maravilhoso, cabelos lisos e sorridente. Os dois, apesar de terem três filhos, se intitulam "recém-casados" e como tambem não conseguiram tirar a carteira de motorista de Maryland, resolveram que uma bicicleta seria um meio de transporte interessante.
Mas com tanto amor e paixao no ar, a bicicleta tinha que ser especial: dois guidons, dois selins e duas rodas. Ele na frente, cabelos brancos ao vento, faróis (a pilha) acesos, pedala com força enquanto ela vai atrás sem nem sequer por as mãos no volante. Eu perguntei se ela nao tinha medo de cair. "Eu tenho total confiança nele", ela me disse.
Insistiram pra que nós fizéssemos uma tentativa. Ok, eu de saia e salto, não era muito bem o que eu imaginava para andar de bicicleta, mas vamos lá. O Michael tinha um pé no pedal e outro no chão e eu coloquei meus dois pés nos encaixes. Ai que medo de cair... eu ja estava me imaginando jogada no chao igual uma boneca abandonada, com a saia levantada e o salto quebrado...
Confiança! Confiança! Os franceses diziam. Lá fomos nós... no vento, na brisa noturna, 1.20 da manhã em Washington, pedalando, pedalando, que bom, eu sorria feliz, confiante no meu piloto, quando: ups! o Michael perde o equilíbrio. Paramos abruptamente. Eu quis continuar mas ele ficou com medo e descemos da bicicleta.
Olhei em volta e nao acreditei: as pessoas na rua tinham parado para ver e diziam "coooooool" e "that's fun!". (De madrugada? Nao muito comum na america.) Enfim chegou a hora de dar tchau e voltar pra casa. Nos beijinhos, Danielle disse: "Riding a bike together is just like being in a relationship: sometimes he pulls and others you have to pull. But you always have to trust each other".
Achei lindo!
Ontem conhecemos um casal francês, Jean e Danielle.
Ja na faixa dos 60, Jean tem um incrível senso de humor que aniquila qualquer tentativa de conversa intelectual com uma piada irônica (eu achei sensacional!). Ela - como todas francesas - magra, de sotaque maravilhoso, cabelos lisos e sorridente. Os dois, apesar de terem três filhos, se intitulam "recém-casados" e como tambem não conseguiram tirar a carteira de motorista de Maryland, resolveram que uma bicicleta seria um meio de transporte interessante.
Mas com tanto amor e paixao no ar, a bicicleta tinha que ser especial: dois guidons, dois selins e duas rodas. Ele na frente, cabelos brancos ao vento, faróis (a pilha) acesos, pedala com força enquanto ela vai atrás sem nem sequer por as mãos no volante. Eu perguntei se ela nao tinha medo de cair. "Eu tenho total confiança nele", ela me disse.
Insistiram pra que nós fizéssemos uma tentativa. Ok, eu de saia e salto, não era muito bem o que eu imaginava para andar de bicicleta, mas vamos lá. O Michael tinha um pé no pedal e outro no chão e eu coloquei meus dois pés nos encaixes. Ai que medo de cair... eu ja estava me imaginando jogada no chao igual uma boneca abandonada, com a saia levantada e o salto quebrado...
Confiança! Confiança! Os franceses diziam. Lá fomos nós... no vento, na brisa noturna, 1.20 da manhã em Washington, pedalando, pedalando, que bom, eu sorria feliz, confiante no meu piloto, quando: ups! o Michael perde o equilíbrio. Paramos abruptamente. Eu quis continuar mas ele ficou com medo e descemos da bicicleta.
Olhei em volta e nao acreditei: as pessoas na rua tinham parado para ver e diziam "coooooool" e "that's fun!". (De madrugada? Nao muito comum na america.) Enfim chegou a hora de dar tchau e voltar pra casa. Nos beijinhos, Danielle disse: "Riding a bike together is just like being in a relationship: sometimes he pulls and others you have to pull. But you always have to trust each other".
Achei lindo!
Saturday, April 08, 2006
A Raposa
Noite passada tive esse sonho mais pra pesadelo que, da minha janela, eu via uma raposa perseguindo dois furões selvagens (que na verdade eram Brownie e Muffin mas com um cabelinho mais arrepiado). Eu abri a porta e saí de meias, pisando na grama molhada para defender os bichos. Quando eu vi, a raposa tinha se transformado num lobo preto.
Então de manhã eu estava olhando pela janela quando vi uma raposa passeando na floresta, as folhas secas encharcadas da chuva da noite, e os brotos verdinhos em todas as árvores. Ela olhava de um lado para o outro e parecia feliz, satisfeita da vida. Mas em volta dela, a floresta estava muda. Sem nenhum outro bicho por perto, ela seguia num passinho contente.
Não consegui deixar de pensar em mim e nas minhas tardes sozinha. Me ocupo, mas a solidão às vezes arranha a garganta e o peito. Pisando nas folhas amarelas molhadas, corro sozinha, muitas vezes acordo sozinha. Almoço e passo o dia aqui, no silêncio máximo do meu minúsculo apartamento. Mas não deixo de seguir feliz.
Noite passada tive esse sonho mais pra pesadelo que, da minha janela, eu via uma raposa perseguindo dois furões selvagens (que na verdade eram Brownie e Muffin mas com um cabelinho mais arrepiado). Eu abri a porta e saí de meias, pisando na grama molhada para defender os bichos. Quando eu vi, a raposa tinha se transformado num lobo preto.
Então de manhã eu estava olhando pela janela quando vi uma raposa passeando na floresta, as folhas secas encharcadas da chuva da noite, e os brotos verdinhos em todas as árvores. Ela olhava de um lado para o outro e parecia feliz, satisfeita da vida. Mas em volta dela, a floresta estava muda. Sem nenhum outro bicho por perto, ela seguia num passinho contente.
Não consegui deixar de pensar em mim e nas minhas tardes sozinha. Me ocupo, mas a solidão às vezes arranha a garganta e o peito. Pisando nas folhas amarelas molhadas, corro sozinha, muitas vezes acordo sozinha. Almoço e passo o dia aqui, no silêncio máximo do meu minúsculo apartamento. Mas não deixo de seguir feliz.
Thursday, April 06, 2006
Tem uma coruja na minha janela. Pequena, parruda, bege e branca, butucuda coruja. Essa manhã acordei com o canto de o que pareciam ser 50 passarinhos. Que barulho, levantei e abri as cortinas, todos cantando o que mais pareciam ser gritos (de passarinho), em pleno vôo e quando eu aparecia na janela, fugiam. E começava de novo, aquela passarinhada, todas as cores, tamanhos e tipos, reunidos em volta da rede e da cerca de madeira, cantando o que mais parecia ser um comício político de aves.
Desliguei os ouvidos e saí de casa. Quando voltei, a mesma história, eles não cansam!! Fiz então o meu próprio barulho, num protesto bobo. Liguei o aquecedor, passei aspirador no chão e por fim (eu me canso, afinal sou gente) liguei a música. No topo do volume das pobres "caixas", se é que posso chamá-las assim, do meu laptop, eu ainda ouvia o canto de um passarinho insistente. Resolvi ceder. No Brasil eu raramente ouvia tais cantos, eram só ônibus (que aliás tremiam o prédio todo), buzinas, música alta. Por isso, cedi. Desliguei a música para ouvir a música desta nova fase da minha vida. Uma fase agradável, tranquila, fresca, feliz.
Por curiosidade, olhei pela janela. Lá estava um micro-passarinho, no ar, cabecinha apontada pra cima, literalmente gritando. Pra quê tanta saliência, meu Deus?! Levantei e fui na porta da varanda (de vidro) para ver melhor e lá estava ele, pi pi pi pi pi pi! pi pi pi pi pi pi! Os olhinhos fixos pra cima, um grito de guerra. Olhei pra onde ele olhava e lá eu vi. Majestosa, comparativamente imensa, um olho aberto e outro fechado - a coruja!
Desliguei os ouvidos e saí de casa. Quando voltei, a mesma história, eles não cansam!! Fiz então o meu próprio barulho, num protesto bobo. Liguei o aquecedor, passei aspirador no chão e por fim (eu me canso, afinal sou gente) liguei a música. No topo do volume das pobres "caixas", se é que posso chamá-las assim, do meu laptop, eu ainda ouvia o canto de um passarinho insistente. Resolvi ceder. No Brasil eu raramente ouvia tais cantos, eram só ônibus (que aliás tremiam o prédio todo), buzinas, música alta. Por isso, cedi. Desliguei a música para ouvir a música desta nova fase da minha vida. Uma fase agradável, tranquila, fresca, feliz.
Por curiosidade, olhei pela janela. Lá estava um micro-passarinho, no ar, cabecinha apontada pra cima, literalmente gritando. Pra quê tanta saliência, meu Deus?! Levantei e fui na porta da varanda (de vidro) para ver melhor e lá estava ele, pi pi pi pi pi pi! pi pi pi pi pi pi! Os olhinhos fixos pra cima, um grito de guerra. Olhei pra onde ele olhava e lá eu vi. Majestosa, comparativamente imensa, um olho aberto e outro fechado - a coruja!
Wednesday, March 01, 2006
Das janelas vejo longas árvores secas e tristes. E olho para dentro do apartamento, preciso ligar o aquecimento pois está ficando frio. Ligo e logo penso que o ar seco que faz meu nariz sangrar todos os dias vai acabar ficando mais seco ainda. São meio-dia, mas sinto como se fossem 9 da manhã - o silêncio (que temo que vá durar o dia todo) e o clima são sempre os mesmos.
Hoje corri pela manhã. É um jeito de conhecer a vizinhança, ficar menos perdida, me localizar mais. Casas e mais casas com carros idênticos nas garagens e ninguém por perto. Um condomínio fantasma? O vento frio deixou as maçãs do meu rosto vermelhas, um cachorro latiu de uma janela - enfim um ser vivo além de mim! - e vim correndo (literalmente) para casa.
Fazendo das palavras de Rubem Alves as minhas "É preciso muito pouco. A alegria está muito próxima. Mora no momento. Nós a perdemos porque pensamos que ela virá no futuro, depois que algum evendo portentoso que mudará a nossa vida. Mas vida: o que é isso?"
Hoje corri pela manhã. É um jeito de conhecer a vizinhança, ficar menos perdida, me localizar mais. Casas e mais casas com carros idênticos nas garagens e ninguém por perto. Um condomínio fantasma? O vento frio deixou as maçãs do meu rosto vermelhas, um cachorro latiu de uma janela - enfim um ser vivo além de mim! - e vim correndo (literalmente) para casa.
Fazendo das palavras de Rubem Alves as minhas "É preciso muito pouco. A alegria está muito próxima. Mora no momento. Nós a perdemos porque pensamos que ela virá no futuro, depois que algum evendo portentoso que mudará a nossa vida. Mas vida: o que é isso?"
Friday, July 01, 2005
Voltar ao Canada fez bem a alma, a pele, ao coracao. Rever a rua onde morei, os caminhos que fazia todos os dias, as arvores, os esquilos. Sinto falta de tudo aqui. Das ruas, das flores, do cheiro do ar, da cor do ceu. Sinto que parte de mim ficou aqui. Parte de mim com 23 anos e alegria nos olhos. Parece que foi ontem que sai e hoje demorou tanto para chegar. Tenho a impressao de que tudo continua como esta - o que nao e verdade, e so olhar em volta. Me pergunto, a cada segundo que passa, se seria bom ter ficado. Como teria sido, se teria sido bom. E finalmente, pela primeira vez desde que voltei ao Brasil, concluo que a volta foi boa.
Friday, February 18, 2005
O Presente de Aniversário
A insônia de segunda acabou sendo produtiva: por que não visitar o atelier daquele artista que tanto gosto? Esse seria o melhor presente que poderia existir, a realização de um sonho antigo. Hoje, esta noite, sentada no sofá da sala, ainda reflito e me emociono com tudo que se passou no dia da visita. Quando cheguei - acompanhada de minha mãe e meu marido - vi aquelas paredes, cobertas de pinturas, que pinturas! E logo meus olhos se fixaram no retrato de um homem jovem e não tão bonito, mas interessante. O retrato do artista quando jovem exibia um bigode estilo Clark Gable e cabelos negros ondulados; o rosto de um moço cujos olhos sinceros exibiam alegria. E de repente me vi ali, parada em frente àquela comparação inevitável entre o velho e o novo, um belo na pintura e o real, de cabelos brancos raleados. Eu era um galã, ele me disse e nao tive resposta, só pensei que sim. Ele nos serviu wiskey e me perguntou quantos anos tinha. Vinte sete amanhã, senhor. Mas que jovem, que alegria, ele falou para minha mãe. Respondi que já tinha alguns cabelos brancos - os quais ele fez questão de conferir por pura diversão - e que o tempo era implacável.
E a visita prosseguiu. Ele me mostrou seus quadros favoritos. Me mostrou fotos de seus pais e falou de sua juventude. Três retratos dele nos olhavam e eu não conseguia deixar de pensar em toda a tristeza que havia naquele lugar. Um homem sozinho há tantos anos. Ele ria do que falávamos e me deu uma revista para que eu lesse uma reportagem. Mostrou seus quadros à venda e explicou um por um. Apontei meu favorito e apontei também o fato de que eu não poderia pagar por ele. Ele sentado na cadeira e eu em pé, cercada pelo passado e o presente e por tantos, mas tantos sentimentos. Meu marido ofereceu as condições de pagamento do quadro. Ele fez que sim. E eu chorei, surpresa, pelo quadro e pelo artista abandonado. E ao me ver chorar, me disse: você é uma boa alma.
A insônia de segunda acabou sendo produtiva: por que não visitar o atelier daquele artista que tanto gosto? Esse seria o melhor presente que poderia existir, a realização de um sonho antigo. Hoje, esta noite, sentada no sofá da sala, ainda reflito e me emociono com tudo que se passou no dia da visita. Quando cheguei - acompanhada de minha mãe e meu marido - vi aquelas paredes, cobertas de pinturas, que pinturas! E logo meus olhos se fixaram no retrato de um homem jovem e não tão bonito, mas interessante. O retrato do artista quando jovem exibia um bigode estilo Clark Gable e cabelos negros ondulados; o rosto de um moço cujos olhos sinceros exibiam alegria. E de repente me vi ali, parada em frente àquela comparação inevitável entre o velho e o novo, um belo na pintura e o real, de cabelos brancos raleados. Eu era um galã, ele me disse e nao tive resposta, só pensei que sim. Ele nos serviu wiskey e me perguntou quantos anos tinha. Vinte sete amanhã, senhor. Mas que jovem, que alegria, ele falou para minha mãe. Respondi que já tinha alguns cabelos brancos - os quais ele fez questão de conferir por pura diversão - e que o tempo era implacável.
E a visita prosseguiu. Ele me mostrou seus quadros favoritos. Me mostrou fotos de seus pais e falou de sua juventude. Três retratos dele nos olhavam e eu não conseguia deixar de pensar em toda a tristeza que havia naquele lugar. Um homem sozinho há tantos anos. Ele ria do que falávamos e me deu uma revista para que eu lesse uma reportagem. Mostrou seus quadros à venda e explicou um por um. Apontei meu favorito e apontei também o fato de que eu não poderia pagar por ele. Ele sentado na cadeira e eu em pé, cercada pelo passado e o presente e por tantos, mas tantos sentimentos. Meu marido ofereceu as condições de pagamento do quadro. Ele fez que sim. E eu chorei, surpresa, pelo quadro e pelo artista abandonado. E ao me ver chorar, me disse: você é uma boa alma.
Sunday, January 30, 2005
Papo de Aranha
Fala pausada, monotônica, assuntos entediantes, histórias repetitivas, teorias sem pé nem cabeça, polêmicas, futebol, Lula, música ruim, doenças, acidentes, meus-filhos-minha-vida, comida e só comida, escatologias, papo furado, dieta, religião somada a tentativas de conversão, trabalho, casos que nunca terminam, gente que não consegue continuar uma conversa, chuva, calor ou frio, conversa de nerd, internet, negativismo, tiques nervosos, né, sabe, entende. Gente contando vantagem, falando de plástica, falando mal do marido (ou da mulher), gente que tem mania de escrever tudo que fala, que responde grosseiramente, que tem sempre a palavra final, que acha que tem sempre razao. Gente que fala sempre nas entrelinhas. Gente escrachada, que fala demais. Gente que bebe e fica chato. Gente que nunca tem novidades, que não fala nada da própria vida. Lamúrias, stress, assuntos entediantes, papo de adolescente, papo de radical, papo de velho chato. Papo de aranha.
Fala pausada, monotônica, assuntos entediantes, histórias repetitivas, teorias sem pé nem cabeça, polêmicas, futebol, Lula, música ruim, doenças, acidentes, meus-filhos-minha-vida, comida e só comida, escatologias, papo furado, dieta, religião somada a tentativas de conversão, trabalho, casos que nunca terminam, gente que não consegue continuar uma conversa, chuva, calor ou frio, conversa de nerd, internet, negativismo, tiques nervosos, né, sabe, entende. Gente contando vantagem, falando de plástica, falando mal do marido (ou da mulher), gente que tem mania de escrever tudo que fala, que responde grosseiramente, que tem sempre a palavra final, que acha que tem sempre razao. Gente que fala sempre nas entrelinhas. Gente escrachada, que fala demais. Gente que bebe e fica chato. Gente que nunca tem novidades, que não fala nada da própria vida. Lamúrias, stress, assuntos entediantes, papo de adolescente, papo de radical, papo de velho chato. Papo de aranha.
Tuesday, January 25, 2005
O Dia
A manhã teria um ar de marasmo e preguiça e a tarde passaria lenta e morna, como num romance de Jorge Amado. Que a noite viria, sem falta, viria, e se tudo desse certo traria consigo um ar refrescante, quase que rejuvenescedor, para nossos corpos. E estaríamos deitados, na grama verde em frente de casa, olhando para o céu cheio de estrelas. Pensaríamos nos anos que se passaram e nos que estão por vir. Nos lembraríamos da família e dos amigos, agora tão distantes mas ao mesmo tão perto dentro de nós. E faríamos conjecturas de como seria se tivéssemos continuado por lá. E sentiríamos saudades. Talvez cairiam lágrimas, algumas lágrimas pela mãe que estaria sozinha em outro continente. O que ela estaria fazendo agora?, nos perguntaríamos.
E ele ficaria sério, como costuma ficar quanto está pensativo. E eu falaria sem parar, moto contínuo, e me lembraria de bons momentos e concluiria que certamente deveríamos voltar para uma visita. E nos convenceríamos de que havíamos feito a escolha certa, apesar de que é sempre difícil saber. Não sentimos falta dos lugares, mas sim das pessoas, diríamos um ao outro. Estaríamos em paz e essa paz transparecería em nossos rostos. Mas teríamos uma dor, também tão aparente quanto a paz, que seria a dor da falta. A falta que tudo nos faz. E a dor de sentir alegria por estar longe de tudo.
A manhã teria um ar de marasmo e preguiça e a tarde passaria lenta e morna, como num romance de Jorge Amado. Que a noite viria, sem falta, viria, e se tudo desse certo traria consigo um ar refrescante, quase que rejuvenescedor, para nossos corpos. E estaríamos deitados, na grama verde em frente de casa, olhando para o céu cheio de estrelas. Pensaríamos nos anos que se passaram e nos que estão por vir. Nos lembraríamos da família e dos amigos, agora tão distantes mas ao mesmo tão perto dentro de nós. E faríamos conjecturas de como seria se tivéssemos continuado por lá. E sentiríamos saudades. Talvez cairiam lágrimas, algumas lágrimas pela mãe que estaria sozinha em outro continente. O que ela estaria fazendo agora?, nos perguntaríamos.
E ele ficaria sério, como costuma ficar quanto está pensativo. E eu falaria sem parar, moto contínuo, e me lembraria de bons momentos e concluiria que certamente deveríamos voltar para uma visita. E nos convenceríamos de que havíamos feito a escolha certa, apesar de que é sempre difícil saber. Não sentimos falta dos lugares, mas sim das pessoas, diríamos um ao outro. Estaríamos em paz e essa paz transparecería em nossos rostos. Mas teríamos uma dor, também tão aparente quanto a paz, que seria a dor da falta. A falta que tudo nos faz. E a dor de sentir alegria por estar longe de tudo.
Monday, January 24, 2005
Ninho de Mafagafos
No meu ninho de mafagafos, tem dois mafagafinhos que se enroscam e brincam boa parte do tempo em que estão acordados. Se um acorda, o outro acorda também. Se um resolve comer, o outro sente fome. Caso queiram beber água, coincidentemente nunca estão sozinhos. Meus mafagafinhos dormem juntos, empilhados, fofos e peludos. Como são lindos!
Brownie, o mafagafo mais velho, cuja graça pela vida havia passado há tempo e cujo amor era direcionado apenas para humanos, encontrou em seu novo amigo, não só um companheiro de traquinagens mas também alguém para dividir o tédio do dia a dia. Muffin, o adotivo recém-chegado, se integrou à casa e ao novo irmão de tal forma que tornou-se impossível para todos que aqui habitam, imaginar que um dia conseguimos viver sem ele.
Como são lindos meus meninos deitados no chão da cozinha, curtindo o piso fresco nesse dia tão quente! São essas pequenas coisas, muito pequenas mesmo, que me fazem querer continuar. E se eu pulasse da minha varanda, setimo andar, agora mesmo?
Delícia seria não precisar conviver com o cinismo nunca mais. Maravilhoso não ter que ouvir o que tenho ouvido ultimamente. Nunca, nunca mais. Na morte, sei que não encontraria pessoas tão mentirosas. Mas me privar dessa visão que me alegra e me mostra que algo muito bom, seja lá um deus ou o que for, deve de fato existir. Não há nada mais lindo que o meu ninho de mafagafos.
No meu ninho de mafagafos, tem dois mafagafinhos que se enroscam e brincam boa parte do tempo em que estão acordados. Se um acorda, o outro acorda também. Se um resolve comer, o outro sente fome. Caso queiram beber água, coincidentemente nunca estão sozinhos. Meus mafagafinhos dormem juntos, empilhados, fofos e peludos. Como são lindos!
Brownie, o mafagafo mais velho, cuja graça pela vida havia passado há tempo e cujo amor era direcionado apenas para humanos, encontrou em seu novo amigo, não só um companheiro de traquinagens mas também alguém para dividir o tédio do dia a dia. Muffin, o adotivo recém-chegado, se integrou à casa e ao novo irmão de tal forma que tornou-se impossível para todos que aqui habitam, imaginar que um dia conseguimos viver sem ele.
Como são lindos meus meninos deitados no chão da cozinha, curtindo o piso fresco nesse dia tão quente! São essas pequenas coisas, muito pequenas mesmo, que me fazem querer continuar. E se eu pulasse da minha varanda, setimo andar, agora mesmo?
Delícia seria não precisar conviver com o cinismo nunca mais. Maravilhoso não ter que ouvir o que tenho ouvido ultimamente. Nunca, nunca mais. Na morte, sei que não encontraria pessoas tão mentirosas. Mas me privar dessa visão que me alegra e me mostra que algo muito bom, seja lá um deus ou o que for, deve de fato existir. Não há nada mais lindo que o meu ninho de mafagafos.
Sunday, January 09, 2005
Todo domingo
Todo domingo durmo até tarde e só acordo quando um furão começa a arranhar a porta da cozinha. Todo domingo tem gosto de preguiça, de almoço especial, de corrida na praça e suco natureba na lanchonete. E todo domingo parece ser mais quente do que os outros dias e sempre penso quem me dera ter uma piscina!
Acontece que ter esse tempo para pensar sempre me leva a uma certa depressão: os grandes enigmas que me rondam noite e dia dia e noite acabam me cercando e me vejo sem saída. Tenho mesmo que meditar, afinal hoje não tenho muito o que fazer, não tenho desculpa nenhuma para me dar, já que nada, nada mesmo - como eu odeio domingos! - precisar ser feito.
Estabeleço, dentro de mim - isso me soa tão louco! - que domingo é dia de relaxar, devo pensar na vida e nas minhas grandes questões assoladoras de alma outro dia. Uma sexta à noite, de chuva, seria perfeita. Ou um sábado de feriado, em que nada abre e me verei ilhada em casa. Aí sim quero ver os defeitos dessa minha vida. Enquanto esses dias perfeitos não vêm, quero curtir a vida a dois e observar o sono quieto dos furões. A guerra entre os dois está acabando aos poucos. Eles brigam quando o novato quer invadir o lugar especial do mais velho no sofá. Mas há pouco encontrei os dois dormindo juntos, nariz com nariz, tão lindos. Ah, a vida é boa e os domingos mais ainda.
Todo domingo durmo até tarde e só acordo quando um furão começa a arranhar a porta da cozinha. Todo domingo tem gosto de preguiça, de almoço especial, de corrida na praça e suco natureba na lanchonete. E todo domingo parece ser mais quente do que os outros dias e sempre penso quem me dera ter uma piscina!
Acontece que ter esse tempo para pensar sempre me leva a uma certa depressão: os grandes enigmas que me rondam noite e dia dia e noite acabam me cercando e me vejo sem saída. Tenho mesmo que meditar, afinal hoje não tenho muito o que fazer, não tenho desculpa nenhuma para me dar, já que nada, nada mesmo - como eu odeio domingos! - precisar ser feito.
Estabeleço, dentro de mim - isso me soa tão louco! - que domingo é dia de relaxar, devo pensar na vida e nas minhas grandes questões assoladoras de alma outro dia. Uma sexta à noite, de chuva, seria perfeita. Ou um sábado de feriado, em que nada abre e me verei ilhada em casa. Aí sim quero ver os defeitos dessa minha vida. Enquanto esses dias perfeitos não vêm, quero curtir a vida a dois e observar o sono quieto dos furões. A guerra entre os dois está acabando aos poucos. Eles brigam quando o novato quer invadir o lugar especial do mais velho no sofá. Mas há pouco encontrei os dois dormindo juntos, nariz com nariz, tão lindos. Ah, a vida é boa e os domingos mais ainda.
Friday, December 31, 2004
Resoluções
São essas as resoluções que farei, correr mais e comer menos, amar mais e falar menos, me dar mais para receber mais, pensar, ler e estudar mais. O pior desse ano que passou são as dores que parecem incuráveis e que presinto, dentro de mim, irão continuar latejando e me fisgando vez ou outra. A dor volta sempre sem que eu queira. Mas o pior já passou, pelo menos é isto que sinto. Talvez este tenha sido um ano transitório, de adaptação. Nunca pensei que a adaptação a esta vida fosse demorar tanto tempo.
São as perspectivas que me fazem viver. E é o amor que recebo e que sinto encher minha casa, que me dão a alegria e um pouco de força para continuar. Daí minha maior resolução para 2005: quero finalmente voltar a ser feliz.
Que a chuva continue caindo, linda, na minha janela, deixando o ar com um maravilhoso cheiro de terra.
Brownie, Muffin e Mi, vocês são tudo para mim.
Feliz Ano Novo.
São essas as resoluções que farei, correr mais e comer menos, amar mais e falar menos, me dar mais para receber mais, pensar, ler e estudar mais. O pior desse ano que passou são as dores que parecem incuráveis e que presinto, dentro de mim, irão continuar latejando e me fisgando vez ou outra. A dor volta sempre sem que eu queira. Mas o pior já passou, pelo menos é isto que sinto. Talvez este tenha sido um ano transitório, de adaptação. Nunca pensei que a adaptação a esta vida fosse demorar tanto tempo.
São as perspectivas que me fazem viver. E é o amor que recebo e que sinto encher minha casa, que me dão a alegria e um pouco de força para continuar. Daí minha maior resolução para 2005: quero finalmente voltar a ser feliz.
Que a chuva continue caindo, linda, na minha janela, deixando o ar com um maravilhoso cheiro de terra.
Brownie, Muffin e Mi, vocês são tudo para mim.
Feliz Ano Novo.
Thursday, December 02, 2004
Em dezembro chove quase todos os dias. O ceu varia entre azul e cinza. Azul quando esta quente e nao chove e cinza nos dias de meio termo e chuva. Da minha janela vejo o predio da frente e uma fila de cabritos atravessando a rua. Me pergunto onde eles vao, a rua nao tem saida. De repente, como se tivesse levado um soco, vejo que eu tambem nao sei aonde ir. Esses cabritos com certeza tem um destino: algum gramado proximo ou, na pior das hipoteses, a panela de alguem. Alem da morte certa, porem, nao consigo ver ou prever nada para mim. Quero dizer, nada em vida. Me lembro de que sempre fui assim, nunca tive muitos planos, desde crianca. E outro dia mesmo ouvi alguem falando na TV que quem nao tem metas, nao chega a lugar nenhum! Pelo jeito, lugar algum e o meu destino.
Todos sairam e entao fiquei sozinha neste apartamento cheio de livros nao lidos e poeira. E me lembro de como fui feliz aqui e como tudo era tao diferente do que e hoje. E como envelheci e tambem fiquei cheia desse po, assim como tudo em minha volta. Sou alguem diferente presa neste corpo e colada/trancada com cadeados invisiveis a este lugar. Pertenco a um lugar diferente.
Todos sairam e entao fiquei sozinha neste apartamento cheio de livros nao lidos e poeira. E me lembro de como fui feliz aqui e como tudo era tao diferente do que e hoje. E como envelheci e tambem fiquei cheia desse po, assim como tudo em minha volta. Sou alguem diferente presa neste corpo e colada/trancada com cadeados invisiveis a este lugar. Pertenco a um lugar diferente.
Thursday, November 25, 2004
Ele lia aquele livro que não tinha parágrafos. Eu pedia para que ele parasse de ler e ele carinhosamente me dizia que pararia no próximo parágrafo. Kertesz me fez chorar na sala de espera do dentista há uns meses. Fui descobrir depois que eu tinha lido o último livro de uma trilogia. E agora ele lê o primeiro, uma edição bonita, mas com a tradução não muito boa, que ganhou de presente de aniversário. Para de ler, apaga a luz! E me lembro do livro, e das divagaçoes de um autor que consegue refletir sobre a vida triste, marcada pelo holocausto e pelo fato de ter sido o único filho sobrevivente de seus pais. Ele se depara com Schopenhauer e Nietzsche pelo caminho. Tao intelectual o Kertesz... Saul Bellow me fez chorar tambem, em Ravelstein. Amos Oz me deixou aos prantos com Meu Michel. Concluo que o problema está em mim, só pode ser.
Peço mais uma vez para ele desligar a luz. Estou ficando impaciente, quero dormir e essa luz na minha cara. Ele me encosta a mão em mim e fala para eu ter calma... No meu sonho, eu estava caminhando pelas ruas de Jerusalém, com Hana Gonen e seu bebê. Ela encontrava o Michel dela mas o meu havia sumido. Como que fui perdê-lo de vista assim? Olho em volta e nada. Um monte de gente mas ninguém se parece com ele. Abro os olhos e ele esta aí, do meu lado, ainda lendo. Por que ler tanto, Michel? São quase meia-noite. Ele me diz que nao tem sono. Durmo de novo e desta vez vejo Ravelstein em seu casaco Lanvin bege, em frente a uma turma de alunos. Ele ia de Platão a Leibniz. E como ele conhecia Aristóteles! Que mente brilhante! Que fantástico! Como ele consegue associar tudo isso? E que sorte a minha fazer parte disto. Mas acordo de novo, com o meu Michel apagando a luz. Pelo jeito sentiu sono - ou pena de mim em dormir no claro.
Peço mais uma vez para ele desligar a luz. Estou ficando impaciente, quero dormir e essa luz na minha cara. Ele me encosta a mão em mim e fala para eu ter calma... No meu sonho, eu estava caminhando pelas ruas de Jerusalém, com Hana Gonen e seu bebê. Ela encontrava o Michel dela mas o meu havia sumido. Como que fui perdê-lo de vista assim? Olho em volta e nada. Um monte de gente mas ninguém se parece com ele. Abro os olhos e ele esta aí, do meu lado, ainda lendo. Por que ler tanto, Michel? São quase meia-noite. Ele me diz que nao tem sono. Durmo de novo e desta vez vejo Ravelstein em seu casaco Lanvin bege, em frente a uma turma de alunos. Ele ia de Platão a Leibniz. E como ele conhecia Aristóteles! Que mente brilhante! Que fantástico! Como ele consegue associar tudo isso? E que sorte a minha fazer parte disto. Mas acordo de novo, com o meu Michel apagando a luz. Pelo jeito sentiu sono - ou pena de mim em dormir no claro.
Tuesday, November 23, 2004
E eu tento desesperadamente acessar aquele site. Quero postar minhas fotos, dizer quais sao os livros que leio, os filmes que vejo, minha cor favorita. Mas por que? Me pergunto qual seria o interesse das outras pessoas na minha vida, logo a minha.
Sao meia-noite e amanha o tecnico da maquina de lavar chega cedo para fazer a manutencao. Meu Deus! O que estou fazendo aqui, grudada nessa cadeira, em frente a essa tela, me irritando com a lentidao da minha super-rapida internet a cabo? O que?
Entao estou aqui. As vezes me pergunto "fazendo o que?", mas eu nao sei, ninguem consegue me responder, eu pareco estar perdida, sem ter onde ir, nao sei quem sao meus amigos - sera que os tenho? Tenho, tenho sim, me convenco e logo depois me acho convencida, cheia de mim, claro que tenho amigos! E tenho um marido e um bicho em casa que me adoram. E o bicho dorme atras da geladeira, tao calmo, feliz, tranquilo. Ouco um dialogo, uma entrevista na radio canadense. Estou fora do Canada ha um ano. Eh inverno lá e outono dentro de mim. Caem folhas e folhas e mais folhas. E faz frio e o vento corta meu rosto e maos por dentro e me sinto sozinha, longe de casa. Porque casa ainda nao é, nao existe, nao tem icone e nem soa permanente. Porque casa esta longe e nao é mais. E por que ser obrigado a chamar de casa isto que nao consegue me confortar?
E eu me lembro dos natais com a neve branca na janela. E os pinheiros verdes, grandes, carregados. E das musicas de natal. "I'm dreaming of a white christmas". Estou sonhando sim. E juro que vou continuar sonhando. Ate um dia nevar no Brasil.
novembro/2004.
Sao meia-noite e amanha o tecnico da maquina de lavar chega cedo para fazer a manutencao. Meu Deus! O que estou fazendo aqui, grudada nessa cadeira, em frente a essa tela, me irritando com a lentidao da minha super-rapida internet a cabo? O que?
Entao estou aqui. As vezes me pergunto "fazendo o que?", mas eu nao sei, ninguem consegue me responder, eu pareco estar perdida, sem ter onde ir, nao sei quem sao meus amigos - sera que os tenho? Tenho, tenho sim, me convenco e logo depois me acho convencida, cheia de mim, claro que tenho amigos! E tenho um marido e um bicho em casa que me adoram. E o bicho dorme atras da geladeira, tao calmo, feliz, tranquilo. Ouco um dialogo, uma entrevista na radio canadense. Estou fora do Canada ha um ano. Eh inverno lá e outono dentro de mim. Caem folhas e folhas e mais folhas. E faz frio e o vento corta meu rosto e maos por dentro e me sinto sozinha, longe de casa. Porque casa ainda nao é, nao existe, nao tem icone e nem soa permanente. Porque casa esta longe e nao é mais. E por que ser obrigado a chamar de casa isto que nao consegue me confortar?
E eu me lembro dos natais com a neve branca na janela. E os pinheiros verdes, grandes, carregados. E das musicas de natal. "I'm dreaming of a white christmas". Estou sonhando sim. E juro que vou continuar sonhando. Ate um dia nevar no Brasil.
novembro/2004.
Friday, October 03, 2003
Medo de Mudar?
Mudei de casa duas vezes em um ano. Em uma dessas vezes, mudei de pais tambem. Mudei meus amigos, habitos, meu carro, minha cama, minha vida. Hoje corremos e cozinhamos juntos todos os dias. Somos mais saudaveis. Tambem nao levantamos mais para atender o telefone durante as refeicoes. Somos menos estressados, mais tranquilos. Hoje ele tem licoes de musica e eu de tricot. Estamos expandindo nossos horizontes, exercitando o outro lado do cerebro e descansando a mente dos inevitaveis problemas. Tudo, sem excessao, mudou para melhor.
Passados dois anos, ha mudanca a vista. Outra vez, mudaremos de pais, cultura, clima, ambiente. Voltaremos para os tropicos do calor incessante, das mulheres sensuais de corpos sarados, cabelos alisados e roupas sempre colantes. Voltaremos aos constrastes sociais, aos assaltos habituais, as enchecoes de saco cotidianas. Sim! Teremos familias perto, pressao para ter filhos, seguir as regras, sermos magros, bons filhos.
A dor em partir e a incerteza do que nos espera me faz refletir: "sera que estou com medo de mudar?". Ah, nao consigo admitir a mim mesma esse medo. Nego, REnego! E errado ter medo de mudancas, so os covardes vivem a vida sofrendo por medo do desconhecido! E nos estaremos voltando para o que bem conhecemos, a mesma vidinha de sempre, quem nao gostaria disso? Voltar ao proprio pais, o gostoso apartamento, ficar perto de todos? Por que ter medo de mudar se ja conheco o resultado da mudanca? E como trocar um sapato que me aperta por um do numero certo: sei que a troca resultara em conforto. Conforto em nao pagar aluguel e em saber que meu marido tera emprego garantido. Desconforto de viver sob o medo, as cobrancas, a inveja, a raiva e o odio social. O incrivel e incompreensivel conforto de ter cerca eletrica em volta dos predios.
E hora de admitir. Sim, tenho medo da mudanca e do que podera vir a ser de nos apos um ano la. Mas ao mesmo tempo penso que havera um lado bom: minha mae e amigas estarao proximas. E continuarei morando com e amando minha grande paixao. Mas desta vez sera diferente. Ha uma muralha interna, alta e intransponivel, construida nesses sete anos de relacionamento. Uma barreira de olhares e palavras. Uma porta seletiva que nao deixara passarem criticas destrutivas, ciumes, pessoas insatisfeitas, frustradas e infelizes.
So assim teremos mudado por inteiro.
Mudei de casa duas vezes em um ano. Em uma dessas vezes, mudei de pais tambem. Mudei meus amigos, habitos, meu carro, minha cama, minha vida. Hoje corremos e cozinhamos juntos todos os dias. Somos mais saudaveis. Tambem nao levantamos mais para atender o telefone durante as refeicoes. Somos menos estressados, mais tranquilos. Hoje ele tem licoes de musica e eu de tricot. Estamos expandindo nossos horizontes, exercitando o outro lado do cerebro e descansando a mente dos inevitaveis problemas. Tudo, sem excessao, mudou para melhor.
Passados dois anos, ha mudanca a vista. Outra vez, mudaremos de pais, cultura, clima, ambiente. Voltaremos para os tropicos do calor incessante, das mulheres sensuais de corpos sarados, cabelos alisados e roupas sempre colantes. Voltaremos aos constrastes sociais, aos assaltos habituais, as enchecoes de saco cotidianas. Sim! Teremos familias perto, pressao para ter filhos, seguir as regras, sermos magros, bons filhos.
A dor em partir e a incerteza do que nos espera me faz refletir: "sera que estou com medo de mudar?". Ah, nao consigo admitir a mim mesma esse medo. Nego, REnego! E errado ter medo de mudancas, so os covardes vivem a vida sofrendo por medo do desconhecido! E nos estaremos voltando para o que bem conhecemos, a mesma vidinha de sempre, quem nao gostaria disso? Voltar ao proprio pais, o gostoso apartamento, ficar perto de todos? Por que ter medo de mudar se ja conheco o resultado da mudanca? E como trocar um sapato que me aperta por um do numero certo: sei que a troca resultara em conforto. Conforto em nao pagar aluguel e em saber que meu marido tera emprego garantido. Desconforto de viver sob o medo, as cobrancas, a inveja, a raiva e o odio social. O incrivel e incompreensivel conforto de ter cerca eletrica em volta dos predios.
E hora de admitir. Sim, tenho medo da mudanca e do que podera vir a ser de nos apos um ano la. Mas ao mesmo tempo penso que havera um lado bom: minha mae e amigas estarao proximas. E continuarei morando com e amando minha grande paixao. Mas desta vez sera diferente. Ha uma muralha interna, alta e intransponivel, construida nesses sete anos de relacionamento. Uma barreira de olhares e palavras. Uma porta seletiva que nao deixara passarem criticas destrutivas, ciumes, pessoas insatisfeitas, frustradas e infelizes.
So assim teremos mudado por inteiro.
O Noctivago
Tum, tum, tum pra la.
Tum, tum, tum pra ca.
Tum, tum, tum e senta.
Tum, tum, tum e nao para mais.
Essa e a vida do nosso vizinho de cima.
O senhor Ozaki chegou do Japao ha um ano e dois meses. Percebemos que ele havia mudado devido ao barulho que parecia o de alguem montando moveis. Ele era incansavel, um homem de ferro martelando, parafusando e arrastando coisas 24 horas por dia, preparando o apartamento para a chegada da mulher, dai a um mes. Ele nao dormiu na primeira semana. E nos tambem nao.
Mandamos uma carta: "ola vizinho, desde que voce se mudou nao conseguimos dormir. Por favor, evite fazer barulho de madrugada!" E deixamos o numero do nosso telefone embaixo. A noite, notamos o recado na secretaria eletronica: "solly, solly, I am soooo solly!". Ingles de japones. Como se nao bastasse, ele bateu na porta no dia em que estavamos fazendo geleia e nos trouxe presentinhos, dois chopsticks e um espelho de bolsa para mim. Agradecemos. Mas o barulho continuou.
Passado um ano, ja estavamos acostumados ao barulho. Ate que uma madrugada em julho o sr. Ozaki exagerou: tum, tum, tum sem parar. As paredes do nosso apartamento - todas de madeira - tremiam, ecoavam os seus passos madrugada a dentro. Furiosa, escrevi uma carta "sr. Ozaki, se quiser ficar andando a noite inteira, mude para um apartamento no primeiro andar!". So que desta vez a critica nao foi tao bem aceita. Ele me respondeu com outra carta. A carta de alguem que nao entendeu nada que eu havia escrito. Acabei deixando para la.
E assim foi. Sempre que escreviamos cartas, os barulhos diminuiam consideravelmente. Ele ainda andava as 2:30 da matina, so que nas pontas dos pes. Passados alguns dias, ele se esquecia e voltava a marchar enlouquecidamente. Apelamos para o cabo da vassoura no teto. Dormiamos com a vassoura ao lado da cama para no caso de qualquer emergencia, era so pegar a vassoura e dar tres batidinhas leves no teto. Ele respondia com um passo furioso no local das batidas e depois se acalmava.
O senhor Ozaki se tornou personagem do nosso dia-a-dia. Nossas conversas antes de dormir sempre giravam em torno dele. "Olha o japones! Ele esta nervoso!" ou "puxa, ate que ele esta calminho hoje. Deve ter recebido noticias do Japao". Uma noite, acordei de um sonho ruim. De olhos abertos, assustada, comecei pensar no pesadelo. E la estava o vizinho, martelando o teto. De repente, ele parou. Sentou - provavelmente na cama pois ele estava no quarto. E a cama ruiu. E ruiu. E ruiu. Uau! Os japoneses estavam fazendo aquilo! Fiquei prestando atencao, enquanto os barulhos ficavam cada vez mais rapidos e intensos. Alguns minutos depois, eles terminaram. E o sr. e a sra. Ozaki nao andaram mais aquela madrugada. E eu voltei a dormir, feliz em ter ouvido, pela primeira vez, uma movimentacao agradavel no andar de cima.
Tum, tum, tum pra la.
Tum, tum, tum pra ca.
Tum, tum, tum e senta.
Tum, tum, tum e nao para mais.
Essa e a vida do nosso vizinho de cima.
O senhor Ozaki chegou do Japao ha um ano e dois meses. Percebemos que ele havia mudado devido ao barulho que parecia o de alguem montando moveis. Ele era incansavel, um homem de ferro martelando, parafusando e arrastando coisas 24 horas por dia, preparando o apartamento para a chegada da mulher, dai a um mes. Ele nao dormiu na primeira semana. E nos tambem nao.
Mandamos uma carta: "ola vizinho, desde que voce se mudou nao conseguimos dormir. Por favor, evite fazer barulho de madrugada!" E deixamos o numero do nosso telefone embaixo. A noite, notamos o recado na secretaria eletronica: "solly, solly, I am soooo solly!". Ingles de japones. Como se nao bastasse, ele bateu na porta no dia em que estavamos fazendo geleia e nos trouxe presentinhos, dois chopsticks e um espelho de bolsa para mim. Agradecemos. Mas o barulho continuou.
Passado um ano, ja estavamos acostumados ao barulho. Ate que uma madrugada em julho o sr. Ozaki exagerou: tum, tum, tum sem parar. As paredes do nosso apartamento - todas de madeira - tremiam, ecoavam os seus passos madrugada a dentro. Furiosa, escrevi uma carta "sr. Ozaki, se quiser ficar andando a noite inteira, mude para um apartamento no primeiro andar!". So que desta vez a critica nao foi tao bem aceita. Ele me respondeu com outra carta. A carta de alguem que nao entendeu nada que eu havia escrito. Acabei deixando para la.
E assim foi. Sempre que escreviamos cartas, os barulhos diminuiam consideravelmente. Ele ainda andava as 2:30 da matina, so que nas pontas dos pes. Passados alguns dias, ele se esquecia e voltava a marchar enlouquecidamente. Apelamos para o cabo da vassoura no teto. Dormiamos com a vassoura ao lado da cama para no caso de qualquer emergencia, era so pegar a vassoura e dar tres batidinhas leves no teto. Ele respondia com um passo furioso no local das batidas e depois se acalmava.
O senhor Ozaki se tornou personagem do nosso dia-a-dia. Nossas conversas antes de dormir sempre giravam em torno dele. "Olha o japones! Ele esta nervoso!" ou "puxa, ate que ele esta calminho hoje. Deve ter recebido noticias do Japao". Uma noite, acordei de um sonho ruim. De olhos abertos, assustada, comecei pensar no pesadelo. E la estava o vizinho, martelando o teto. De repente, ele parou. Sentou - provavelmente na cama pois ele estava no quarto. E a cama ruiu. E ruiu. E ruiu. Uau! Os japoneses estavam fazendo aquilo! Fiquei prestando atencao, enquanto os barulhos ficavam cada vez mais rapidos e intensos. Alguns minutos depois, eles terminaram. E o sr. e a sra. Ozaki nao andaram mais aquela madrugada. E eu voltei a dormir, feliz em ter ouvido, pela primeira vez, uma movimentacao agradavel no andar de cima.
Monday, September 29, 2003
Insonia
A quem entao devo atribuir minhas tres semanas de sono intranquilo, insonia frequente e sonhos estranhos? Quem e voce que assombra meu dia e perturba minha noite? Na luz do dia ocupo minha mente para que nada triste ou relacionado a ti possam entrar, mas a noite chega e fico indefesa, perdida nos meus pensamentos ate que voce venha e tire meu sono. Mas preciso dormir! Quero chorar, gritar, estrangular os motivos, as situacoes, a situacao de vida, minhas escolhas e ate mesmo o vizinho de cima que, ao minimo ruido me deixa desperta.
O que tem dentro de mim que me persegue, assusta, entristece? Sim, eu sei o que esta havendo mas nao posso escrever. Escrever me fara sofrer, pensar, por em palavras sentimentos doloridos e essa catarse nao me trara solucao alguma mas sim mais sofrimento. Mas ele esta ai, me enchendo de duvidas e incertezas. E a cada dia que passa, a cada manha frustrante pela falta de sono, esse medo imenso aumenta mais – irei ou nao conseguir dormir essa noite? E os tormentos se tornam piores pois percebo que tudo ao meu redor esta sendo atormentado tambem: a harmonia se foi junto com a cama e no dia em que compramos nossas passagens. As regras, as leis de um lugar agora estranho se tornaram vigentes sobre nos. Obedecemos e fazemos o que nos dizem. Temos que voltar, entrar nos antigos conformes para os satisfazermos, conseguirmos o que queremos e - quem sabe um dia? – seremos felizes.
Devemos voltar ao antigo ritmo. Devemos nos acostumar. Devemos nao reclamar, nao contestar, nao desagradar.
E uma pequena vida esta em nossas maos. Seria ele mais feliz aqui com novos pais adotivos? Ou sera que ele teria saudade? Sera que por um breve segundo ele se lembraria de nos e ficaria triste?
Nao tenho respostas, nenhum de nos dois tem. Vejo o sofrimento, a preocupacao em seu rosto e tenho medo de que um dia me acostume com isso.
A quem entao devo atribuir minhas tres semanas de sono intranquilo, insonia frequente e sonhos estranhos? Quem e voce que assombra meu dia e perturba minha noite? Na luz do dia ocupo minha mente para que nada triste ou relacionado a ti possam entrar, mas a noite chega e fico indefesa, perdida nos meus pensamentos ate que voce venha e tire meu sono. Mas preciso dormir! Quero chorar, gritar, estrangular os motivos, as situacoes, a situacao de vida, minhas escolhas e ate mesmo o vizinho de cima que, ao minimo ruido me deixa desperta.
O que tem dentro de mim que me persegue, assusta, entristece? Sim, eu sei o que esta havendo mas nao posso escrever. Escrever me fara sofrer, pensar, por em palavras sentimentos doloridos e essa catarse nao me trara solucao alguma mas sim mais sofrimento. Mas ele esta ai, me enchendo de duvidas e incertezas. E a cada dia que passa, a cada manha frustrante pela falta de sono, esse medo imenso aumenta mais – irei ou nao conseguir dormir essa noite? E os tormentos se tornam piores pois percebo que tudo ao meu redor esta sendo atormentado tambem: a harmonia se foi junto com a cama e no dia em que compramos nossas passagens. As regras, as leis de um lugar agora estranho se tornaram vigentes sobre nos. Obedecemos e fazemos o que nos dizem. Temos que voltar, entrar nos antigos conformes para os satisfazermos, conseguirmos o que queremos e - quem sabe um dia? – seremos felizes.
Devemos voltar ao antigo ritmo. Devemos nos acostumar. Devemos nao reclamar, nao contestar, nao desagradar.
E uma pequena vida esta em nossas maos. Seria ele mais feliz aqui com novos pais adotivos? Ou sera que ele teria saudade? Sera que por um breve segundo ele se lembraria de nos e ficaria triste?
Nao tenho respostas, nenhum de nos dois tem. Vejo o sofrimento, a preocupacao em seu rosto e tenho medo de que um dia me acostume com isso.
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